
Fragmentando-me nos convívios e martírios de todos os dias por não receber o que quis. Eu quis. Eu que nem sei o que sou. Condiz. Meio décimo ou trilhões. Se disser que sei sobre mim, pode ser verdade. Como uma síntese malfeita que decorei. E esqueci. Que fingi te mostrar, e fugi. Não é à toa que preencho minhas lacunas com reticências e palavras vazias. Muito menos que eu possa nesse instante narrar uma agonia. Certa agonia que de tão narrada, nem mais a tenho como minha. Por largá-la, quem sabe, junto a um dado viciado a ser jogado ao vento, com o pé do destino na pseudo-sorte. Pois à aposta na sorte eu prefiro a morte. E o dia anda tão nublado que nem eu mesma sei onde se encontra o Sol nesse instante, e de onde ele surgiu. Como se o vento movimentasse as estrelas para um ponto morto do céu. E assim fez com o Sol. Por esse ponto morto passa a timidez e a vaidade. O que me prende, ama e mata. Levando-me à precoce guilhotina por algo que nem ao menos foi declarado e julgado. Mas se fosse para ser proferido, teria sido. Contra isso, sobra utopia. A menos que a verdade não habite ainda este lugar. Assim sendo, o que não foi proferido foi somente por conta do tempo não ter dado motivo para isso. Ou talvez por existir o amanhã. E este existe para adiar não a morte, mas o que deve ser dito. O fato é que somente quando deixarmos de considerar o amanhã é que a vida começará a fazer sentido. As palavras grafadas na folha farão sentido. O sentimento que se fez inimigo será posto em xeque-mate e fará sentido. Como um abrigo depois de léguas sob chuva. Chega a um ponto da viagem onde o destino é cinzento como a casa e as ruas. O “estar bem” e “não estar” mais relativos que o furto do que pertence ou não pertence a um ser. Mais relativo que o fim justo a alguém. Mas o justo do sentir (seja ele como for) é que permaneça em vão. Por mais que nem a mão tenha acreditado no que acaba de escrever. Quanto mais se aguarda, mais a busca vê seu fim, e a utopia vê sua personificação. Tolice é envolver-se tanto com um escrito perdendo nele a vontade de rimá-lo ou de tornar sonoro o que acredito. Deixe-o como é. Talvez o que eu seja é isto. Um escrito não aprimorado. Nu e claro nas folhas escondidas de algum encadernado. Quase anula a dor. Por tudo pensado, ato ou a ausência deste, a verdade é que teus atos tomam dimensões tão grandes que abrangem meus tantos universos paralelos onde tais atos têm outro contexto, outra vida, outro sujeito, nome, ou somente um valor claro que não se baseie em esconder de mim qualquer fato sobre teu sofrimento nato. Sobre o dia, a noite, ou o conceito de alegria que me atingiria. Por hoje a minha se foi. Junto à brisa que sopra na esquina, unida às tuas palavras solitárias e ambíguas que agora passam sobre o rio de desânimo do qual me tira e atira, em ciclo. Por fim, moro na complexidade de tudo isso, em cada detalhe. Corro. Coro. Por algo além do infinito de me manter em pé somente para ser.
Posso não conseguir sintetizar o que penso, ou me sobrepor ao que sinto, mas ainda assim gostaria de mostrar-lhe este mapa, e ajudar a decifrá-lo.
Hoje supondo o que um dia pensei crer
Despi-me da dúvida, do frio e do calor
A dor nas costas, o invisível para ler
Fatos repetidos, mas isentos de pudor.
Isentos de harmonia, ou suposta rebeldia
Algo que atribua a certo fato o seu valor
O que não frustre o conceito de ousadia
Mesmo que em si internalize esta dor.
E internalize qualquer outra dor que sinta em vida
Pois, à bucólica poesia, ver ciência no olhar seria o fim
A melodia sem som torna-se a tradução da tua partida
Quando esta, após um tempo, já não importa a mim.
Se um dia o luar aparecer antes de eu amadurecer, mande-o esperar por mim. Pois eu sei o quanto me custará ver a primeira gota de luar arder em ti. Diria mais. Mais do que possa contestar. Mas atenho-me a dissertar sobre o que não vi. O que vi, pouco me importou. Disserto sobre o silêncio. O barulho que me incomodou, eu o descarto. Amasso. E jogo em qualquer um que passe. O quão patética ou infantil me torno por ser assim? Antes que me devolva palavras possivelmente ofensivas, digo-te: patética eu seria se dissesse o que não me mantém. Não é que as palavras ditas não me convenham mais. Porém, as não-ditas me excitam profundamente. Nesse passo, repito: patética eu seria se não procurasse compor meu próprio mito. Por isso, se um dia o luar aparecer antes de eu amadurecer, apenas mande esperar-me. Cansei de refletir sobre outro pesar. Diga a ele que de uma vez por todas carrego apenas o meu e que estou a vagar.