Era uma criança fraca
Eu a via andar por mim
Todo dia, o dia todo
Ele murmurava algo assim
Como quem tece sonetos sobre a eternidade…
Sobre a eternidade sem fim.
Era um garoto tolo
Tolo como são os garotos que habitam aqui.
Falsos pobres de coração
Garoto amor e solidão
Ele me via e não olhava para mim.
Garoto contradição.
Pedia esmola para o senhor do tempo
Ria da cara da senhora da sorte
E de cara lavada, mentia e jurava
Que não se importava com a vinda da morte.
Garoto bonito, quase crescido
Nunca crescido, sempre escondido
Pobre garoto
Nobre garoto
Sobre tua criança eu sei.
É rei.
Quem me dera chutar a bola que jogava no campo da vida e golear.
Quem me dera sentir por ti a dor nunca curada da perda passada
Quem me dera, garoto.
Seria lei.
Garoto, segure minha mão.
Feche os olhos e sinta
Sinta como é bom o avesso do chão.
Nunca minta, não diga amor em vão, mas sinta.
Garoto, pegue minha mão
E voe.
Há tantos motivos para chorar em um dia quanto estrelas em uma noite sem nuvens.
Um, dois, três, vejo-os a passar adoecidos em minha mente.
E me tocar, e sufocar.
Pois lá são tantos os motivos para chorar.
Aqui são tantos os motivos para chorar.
Que se não o faço, meu bem, mereço aplausos.
Mereço o aplauso dos motivos de cá.
Já pelas tantas…
Um, dois, três.
Tantas lágrimas…
Um, dois, três.
Careço de gelo para os olhos.
Careço de cegueira para sua vermelhidão.
Careço de alegria para minha paixão.
Eu pisco os olhos…
Um, dois, três.
Mas no meio de tantos motivos
Não acho um que berre ou me culpe
Por dispensar qualquer motivo
E chorar dentre todos eles a sua saudade.
De uma vez, um, dois, três.
O que há é maldade, é crueldade, é simpatia.
A empatia, a covardia, a enfermidade.
O que há é a saudade
E um, dois, três
Motivos para chorá-la.
Que dispensam palavras
Que absorvem o sentido
Com a intensidade de uma estrela cadente que havia explodido.
Foi como um sonho. Um sonho embaçado e confuso de mil novecentos e noventa e tantos… Um sonho caseiro.
Tenho (por algum motivo ou motivo algum) a mania de identificar beleza em certos dias e meses. Não por nenhum acontecimento especial, que fique claro, mas por uma pura questão “estética” de pronúncia e imaginação. Devo dizer que até mesmo de modo imparcial, visto que amo meus aniversários e o mês em que eles ocorrem não está, unido ao dia do meu nascimento, na minha classificação de dias bonitos. Não passa de um dia feio com algo bom.
Não tenho ideia em qual mês o sonho, real ou irreal que seja, ocorreu. Mas pela beleza existir tão naturalmente naquele dia, faço uma aposta cega que deveria ser janeiro.
Bem,
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Vi de longe a alameda da sorte
E desta sorte escrevi a poesia
Do mais utópico querer do meu dia
O adiamento eterno da vinda da morte.
Sono que vem e vai nesta cantiga
Que o homem tece por puros ouvidos
De puros ouvintes fracos e caídos
Por dor de amor e nunca por fadiga.
Quero vivê-lo intenso como um só momento
E eterno como os instantes da eternidade
Converto a sorte em amuleto de veracidade
Ao poder chorar em teu ombro o meu lamento.
Peguei-te no ar e te sufoquei.
Roubei-te o ar e te amei.
Do que sinto eu já bem sei.
Por isso ao ar não te devolverei.
Aos infernos com os pedidos!
Com as desculpas e promessas
Falta que me faz desejar este abismo
Sem que eu suspeite do revanchismo desta.
Revanche de quem? Não me vejo a pegá-la.
Não a tenho palpável diante de mim.
Não tenho ânimo, eloquência, dádiva
Grama seca ou dourado alecrim.
Só me vejo um pouco cansada.
De você nunca, de você nada.
De você não me permito estar cansada.
De você é impossível estar cansada.
Como as estrelas não se cansariam do seu céu.
Mas meu cansaço beira a exaustão.
Estou exausta dessa inquietação.
E da injustiça da minha raiva perante a ti,
Descontando em ti a minha indignação
Por sentir a tua falta.
Por sentir a tua falta, perdão.
Amanheceu e devagar eu andava
Eu andava na rua quando vi uma flor.
Dessas que crescem no asfalto
Como um sinal de alegria na dor.
Dessas que estão no caminho
Quando se está sozinho
Mas se tem um amor.
Na flor eu toquei sem espinhos
Por não ter espinhos, toquei sem temor.
Juro que me fez um carinho
E eu o recebi sem nenhum pudor.
Lembrei do meu bem no instante
No instante em que arranquei-a
Por impulso e calor.
Tive em minhas mãos vida morta
E em um momento de terror,
Creio que vi-a sofrer.
Que meu bem aceite esta flor
Que por amor veio da dor
Como sinal de eu bem lhe querer.
Parece um absurdo sentir o peito cortar às vezes (quando este peito não se parte nunca). Pulmões com ar rarefeito, mas quando este peito vazio encontra-se comprimido, nada mais o corta. Tornou-se sombra do amor, consequência da dor, ou se quiser, inverta essa ordem. Ao personificar a gargalhada, obtive gente morta. Morria assim o riso. O riso que mora no mesmo peito comprimido e que nunca, jamais, poderia ser partido. Encontro-me então não só em uma bifurcação de ideias, como em uma cretina contradição. E quem sou eu pra escolher? Justo eu, que rimo paradoxos e meço antíteses. Mas escolho. E digo: o peito realmente se corta. Porém, a última lágrima não se abrigou lá e o último riso não está lá contido. O peito é comprimido como um último amigo. Como um falso castigo.
Deitado estático
Como quem sabe o que pensa
Como quem pensa o que diz
Como quem diz o que nunca condiz.
E fecha os olhos
Deitado estático
Sombra de cidadão heimatlo
Sombra de verme escondido
Sombra de mendigo dormindo.
Estou hoje deitado
E estático
Parado como se estivesse para morrer.
Mas eu já não morri?
Quando me sentei e deitei aqui
Jurei que sim.
Mas nada.
Besteira.
Parado permaneço
Estático e deitado
Alguém que voou a vida inteira
E hoje na mente puxa os fios de sonho
Feito balões de gás
Que aos poucos tendem a subir
Fugir.
Antes que possamos pensar em pegá-los.
Estático e deitado estou
Como quem nunca na vida fez mais.
Como quem nunca na vida pulou
Para alcançar balões de gás.
Eu andava baixa
Miúda e calada
Sem dó de nada
Sem rumo na estrada
De ré.
Hoje continuo assim
Tenha pena de mim
Pois ganho a vida com um flautim
E vivo nômade com um Arlequim
A pé.
Ouça bem,
Posso jurar nunca ter ido tão além
Quanto no gesto em que te fiz se aproximar.
E o meu olhar caiu em ti como uma flecha
Sem ponta ou impulso, mas parou na tua fronte
No instante em que bem convinha
O olhar que já me mantinha.
Ouça com atenção:
nada do que digo, amor, é em vão.
E se tece sua sombra por onde caminha
Se eu não a notava e pobre me vinha
A culpa é minha, mereço perdão.
Mas saiba que nada do que faço é em vão.
Venha para mais perto, ouça a última coisa
Antes que atravesse a praça e dobre a esquina:
Meu amor só não é maior
Porque espaço já não há.
Duvido do destino, mas entendo de sina.
E se espaço houver, crescerá assim, como previ ser.
Assim como sei que minha dor só terá fim
Porque você a guardará para mim.
E viveremos para sempre como a vontade de ouvir
E o pecado a confessar.
Unidos em um pecado singular.
Por amor e nada mais.
Por amor e do que mais for capaz.