Por meus dedos tortos...

Your awesome Tagline

3 notas

Incógnito

Era uma criança fraca

Eu a via andar por mim

Todo dia, o dia todo

Ele murmurava algo assim

Como quem tece sonetos sobre a eternidade…

Sobre a eternidade sem fim.

Era um garoto tolo

Tolo como são os garotos que habitam aqui.

Falsos pobres de coração

Garoto amor e solidão

Ele me via e não olhava para mim.

Garoto contradição.

Pedia esmola para o senhor do tempo

Ria da cara da senhora da sorte

E de cara lavada, mentia e jurava

Que não se importava com a vinda da morte.

Garoto bonito, quase crescido

Nunca crescido, sempre escondido

Pobre garoto

Nobre garoto

Sobre tua criança eu sei.

É rei.

Quem me dera chutar a bola que jogava no campo da vida e golear.

Quem me dera sentir por ti a dor nunca curada da perda passada

Quem me dera, garoto.

Seria lei.

Garoto, segure minha mão.

Feche os olhos e sinta

Sinta como é bom o avesso do chão.

Nunca minta, não diga amor em vão, mas sinta.

Garoto, pegue minha mão

E voe.

4 notas

Um, dois, três motivos para chorá-la.

Há tantos motivos para chorar em um dia quanto estrelas em uma noite sem nuvens.

Um, dois, três, vejo-os a passar adoecidos em minha mente.

E me tocar, e sufocar.

Pois lá são tantos os motivos para chorar.

Aqui são tantos os motivos para chorar.

Que se não o faço, meu bem, mereço aplausos.

Mereço o aplauso dos motivos de cá.

Já pelas tantas…

Um, dois, três.

Tantas lágrimas…

Um, dois, três.

Careço de gelo para os olhos.

Careço de cegueira para sua vermelhidão.

Careço de alegria para minha paixão.

Eu pisco os olhos…

Um, dois, três.

Mas no meio de tantos motivos

Não acho um que berre ou me culpe

Por dispensar qualquer motivo

E chorar dentre todos eles a sua saudade.

De uma vez, um, dois, três.

O que há é maldade, é crueldade, é simpatia.

A empatia, a covardia, a enfermidade.

O que há é a saudade

E um, dois, três

Motivos para chorá-la.

Que dispensam palavras

Que absorvem o sentido

Com a intensidade de uma estrela cadente que havia explodido.

3 notas

Uma história onírica de pés tortos

Foi como um sonho. Um sonho embaçado e confuso de mil novecentos e noventa e tantos… Um sonho caseiro.

Tenho (por algum motivo ou motivo algum) a mania de identificar beleza em certos dias e meses. Não por nenhum acontecimento especial, que fique claro, mas por uma pura questão “estética” de pronúncia e imaginação. Devo dizer que até mesmo de modo imparcial, visto que amo meus aniversários e o mês em que eles ocorrem não está, unido ao dia do meu nascimento, na minha classificação de dias bonitos. Não passa de um dia feio com algo bom.

Não tenho ideia em qual mês o sonho, real ou irreal que seja, ocorreu. Mas pela beleza existir tão naturalmente naquele dia, faço uma aposta cega que deveria ser janeiro.

Bem,

Ler mais …

1 nota

Sors

Vi de longe a alameda da sorte 

E desta sorte escrevi a poesia

Do mais utópico querer do meu dia

O adiamento eterno da vinda da morte.

 

Sono que vem e vai nesta cantiga

Que o homem tece por puros ouvidos

De puros ouvintes fracos e caídos

Por dor de amor e nunca por fadiga.

 

Quero vivê-lo intenso como um só momento

E eterno como os instantes da eternidade

Converto a sorte em amuleto de veracidade

Ao poder chorar em teu ombro o meu lamento.

3 notas

Delongas da Exaustão

Peguei-te no ar e te sufoquei.

Roubei-te o ar e te amei.

Do que sinto eu já bem sei.

Por isso ao ar não te devolverei.

Aos infernos com os pedidos!

Com as desculpas e promessas

Falta que me faz desejar este abismo

Sem que eu suspeite do revanchismo desta.

Revanche de quem? Não me vejo a pegá-la.

Não a tenho palpável diante de mim.

Não tenho ânimo, eloquência, dádiva

Grama seca ou dourado alecrim.

Só me vejo um pouco cansada.

De você nunca, de você nada.

De você não me permito estar cansada.

De você é impossível estar cansada.

Como as estrelas não se cansariam do seu céu.

Mas meu cansaço beira a exaustão.

Estou exausta dessa inquietação.

E da injustiça da minha raiva perante a ti,

Descontando em ti a minha indignação

Por sentir a tua falta.

Por sentir a tua falta, perdão.

3 notas

Bem-me-quer

Amanheceu e devagar eu andava

Eu andava na rua quando vi uma flor.

Dessas que crescem no asfalto

Como um sinal de alegria na dor.

Dessas que estão no caminho

Quando se está sozinho

Mas se tem um amor.

Na flor eu toquei sem espinhos

Por não ter espinhos, toquei sem temor.

Juro que me fez um carinho

E eu o recebi sem nenhum pudor.

Lembrei do meu bem no instante

No instante em que arranquei-a 

Por impulso e calor.

Tive em minhas mãos vida morta

E em um momento de terror,

Creio que vi-a sofrer.

Que meu bem aceite esta flor

Que por amor veio da dor 

Como sinal de eu bem lhe querer.

2 notas

Angústia em Prosa e Paradoxo.

Parece um absurdo sentir o peito cortar às vezes (quando este peito não se parte nunca). Pulmões com ar rarefeito, mas quando este peito vazio encontra-se comprimido, nada mais o corta. Tornou-se sombra do amor, consequência da dor, ou se quiser, inverta essa ordem. Ao personificar a gargalhada, obtive gente morta. Morria assim o riso. O riso que mora no mesmo peito comprimido e que nunca, jamais, poderia ser partido. Encontro-me então não só em uma bifurcação de ideias, como em uma cretina contradição. E quem sou eu pra escolher? Justo eu, que rimo paradoxos e meço antíteses. Mas escolho. E digo: o peito realmente se corta. Porém, a última lágrima não se abrigou lá e o último riso não está lá contido. O peito é comprimido como um último amigo. Como um falso castigo.

2 notas

Balões

Deitado estático

Como quem sabe o que pensa

Como quem pensa o que diz

Como quem diz o que nunca condiz.

E fecha os olhos

Deitado estático

Sombra de cidadão heimatlo

Sombra de verme escondido

Sombra de mendigo dormindo.

Estou hoje deitado

E estático

Parado como se estivesse para morrer.

Mas eu já não morri?

Quando me sentei e deitei aqui

Jurei que sim.

Mas nada.

Besteira.

Parado permaneço

Estático e deitado

Alguém que voou a vida inteira

E hoje na mente puxa os fios de sonho

Feito balões de gás

Que aos poucos tendem a subir

Fugir.

Antes que possamos pensar em pegá-los.

Estático e deitado estou

Como quem nunca na vida fez mais.

Como quem nunca na vida pulou

Para alcançar balões de gás.

3 notas

Poeminha de Tráfego

Eu andava baixa

Miúda e calada

Sem dó de nada

Sem rumo na estrada

De ré.

Hoje continuo assim

Tenha pena de mim

Pois ganho a vida com um flautim

E vivo nômade com um Arlequim

A pé.

2 notas

24 de Março

Ouça bem,

Posso jurar nunca ter ido tão além

Quanto no gesto em que te fiz se aproximar.

E o meu olhar caiu em ti como uma flecha

Sem ponta ou impulso, mas parou na tua fronte

No instante em que bem convinha

O olhar que já me mantinha.

Ouça com atenção:

nada do que digo, amor, é em vão.

E se tece sua sombra por onde caminha

Se eu não a notava e pobre me vinha

A culpa é minha, mereço perdão.

Mas saiba que nada do que faço é em vão.

Venha para mais perto, ouça a última coisa

Antes que atravesse a praça e dobre a esquina:

Meu amor só não é maior 

Porque espaço já não há.

Duvido do destino, mas entendo de sina.

E se espaço houver, crescerá assim, como previ ser.

Assim como sei que minha dor só terá fim

Porque você a guardará para mim.

E viveremos para sempre como a vontade de ouvir 

E o pecado a confessar.

Unidos em um pecado singular.

Por amor e nada mais.

Por amor e do que mais for capaz.